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Mostrando postagens com o rótulo prosa poética

Por uma pétala

O que me primavera exatamente agora, são teus olhos de orvalho, tuas mãos (mágicas) jardinando meu solo e a lembrança de teu corpo fertilizando meu substrato. Em tua vida sei que sou flor e fêmea. Acácia das tuas carícias. Orquídea fora de época. Efêmera.

assinado eu

(go)laço

de nós, pretendo laços. enlaces que não prendam (e arrependam), que não passem aperto, que se desfaçam fácil (em um piscar de dedos) e se construam sem esforço. laços que sejam enfeites: flor de fita no cabelo, lenço estampando o cuidado, laço borboleta: alado (nossa cota de leveza); e, acaso algum fato necessite de firmeza, que apareça o laço aliado: lado a lado, trazendo segurança à trança dos dias, de aparência ingênua. desejo a nós (por alguns anos) essa espécie de laço que a aspereza do tempo e o parco espaço não desatam. camadas de abraços, voltas e mais voltas de beijos, olhar atento ao centro, cascata de riso, carinho, respeito. adorno sobreposto de passado e hoje em diante, um realce ao pacote que a vida trouxe em sua visita mais recente. laço que será para sempre o mais delicado adereço do nosso presente. valéria tarelho

por causa de você

Para essa gente amiga: da família, da infância, adolescência (inclusive meu primeiro amor), dos esportes, das artes, do trabalho, da vizinhança, das águas azuis de meu berço natal, do verde vale que me adotou; aos amigos que a poesia me proporcionou e que o livro da vida reuniu, aos que ainda não consegui sentir o calor do abraço, mas que jamais me deixaram passar frio; às minhas amoras, amores, flores, estrelas, parceiros, parceiras que são o sol (la si do mi re fa) dos meus versos, todo o amor que couber nessa vida! E, seja ela do tamanho que for, vocês são imensos! Beijos, feliz dia! valéria tarelho - 20.07.15 *O texto da foto está publicado no Livro da Tribo 2015

Leite de pedra

Quinzinho não disse que viria. Mal tive tempo de lavar as partes que ele volta e meia visita. Não teve nem água de cheiro pro ranço do verso. O cabra parece que gosta de me ver esbaforida! Servi-lhe assim mesmo, sem esmero: a rima curtida. Usada de sol a sol. Pensa que ele botou reparo? Chegou sem pedir licença, deitou-se e foi pra lida. Cada palavra farta foi manipulada por suas potentes patas (práticas que não ensaia, nem ensina). O que ele fez com as figuras da língua, virgem maria, essa eu nem te conto, que morro avexada! Quinzinho é mestre em ordenhar poesia. Tô novamente de barriga, o poeminha nasce daí a uns dias. valéria tarelho

Pela fresta

Lá fora, o mesmo céu de outono. Idêntico ao de ontem, nas cores, nos intentos. Chovem cúmulos e cismas. Sangram feridas, fadigas suturam. Secam. Coçam por toda uma vida. Um sol submisso curva-se, rendendo-se ao inverno novo em folha. Ensaia o vento sua nova trilha, que oscila: vaia e assobia (depende de quem rege a filarmônica do dia). Dentro, um cão ressona. Baba, bêbado de sonho (e pança cheia). Uma chaleira desafina no fogão, contrastando com a ária da primeira passarada. Na casa inteira reina o aroma de broa. O pão caseiro sovado em companhia do primeiro vazio da estação (outros virão a calar). Há uma véspera do que não convém. Existe uma estreia que não convence. Mas o inverno, vestindo seu surrado suéter, comparece, acobertando a névoa das urgências. Que não se dispersa. é o que há para agora : pão fresco poema vencido e chá de espera valéria tarelho inverno 2015

fogo e fogão

saudade não é sobremesa. é prato principal: acompanhamento e mistura. trivial. saudade até tenta ser doce em meio ao sal, mas saudade faz sorar. secar a boca. servem saudade em qualquer quantidade e espécies: saudade por peso, prato feito, a la carte. saudade self service é a que mais consome a gente. ontem provei saudade mal passada. fria. hoje tem um banquete de saudade recente. quente, de queimar a poesia. valéria tarelho

o p da vida

viva apaixonadamente! por sua pátria, suas plantas, sua pessoa, seus pets, seu presente, seus parentes, pacientes, pela profissão que defendes. ou dependes. apaixone-se, diariamente, por seus pares, seus particulares, o público que te privilegia e nem sempre te pertence. viva para amar os poemas mais que polêmicas ou problemas; os pés acima das pernas; ame cada passo antes de amar os passeios; ame as pontes, horizontes que parecem passarelas. desfile de mãos dadas com um pensamento leve; reserve um tempo para amar os pontos de partida; ame, inclusive, os finais, passaportes para o próximo parágrafo. viva enamorado[a] dos pássaros, do poente, da poesia, das palavras, das portas à sua frente, das passagens proibidas. permita-se amar despudoradamente. viva, especialmente, como quem está perto da apoteose, próximo de partir para sempre, prestes a ser o pó. corpo presente. e o principal ingrediente: veja [com olhar de poeta] que a vida é uma festa e você tem convite vip. participe! ...

in other words

é primavera, amor. agora e novembro a fora: status de flora. copa e cabana, um cantinho, uma viola, sampa e canção : serão nossa horta, jardim, pomar. é primavera, meu bem. ali, além. aloha! vamos unir as escovas, a sua rede, minha redoma, minha renda com sua barra, seu chope com meu shopping, sua ipanema e minhas tiras [que as havaianas dançaram no último arrastão]. é hora de, a sós, amar à sombra. de grafitar poemas no quadro do luar [particular] de meu ser tão. sermos a soma de meu sim com teu yes. trançar de línguas e idiomas. com fusão. [fly me to the moon] novembro ou não. você verá, paixão - toldos verão -, o rio é de janeiro, mas será sempre fe[r]vereiro sob o avanço do redentor. há mais calor, é feito estufa e feito estava. não é minha praia. minha onda é uma noite mais sinatra. [Let me see what spring is like on Jupiter and Mars] vem! novembro até que é fresco. é efeito flor. valéria tarelho novembro/2014

(with brightness of peace)

Ainda moro lá, naquele beijo que você roubou. E me demoro, em todas as bandeiras que te dei. Não mudo um cheiro de lugar. Não movo o som da sua voz ao pé do ouvido, só porque um aplicativo tornou démodé esse tipo de contato íntimo. Jamais troquei seu riso solto por outros, mais contidos [que, no voar do tempo, me prenderam]. Em alguma curva dessa estrada, perdi de vista o seu olhar. A vida, que era límpida, ficou turva sem você.  Nítido mesmo, só o   endereço daquele espaço e tempo nosso. No qual permaneço. E é claro: lá estás. valéria tarelho *título retirado do poema "love is a place", de e.e.cummings [imagem via Pinterest] *publicado no facebook em 29.10.14

aquela que não vale o pra[n]to

eu sou aquela que não me acho e você acha o máximo. sou aquela que escreve para matar o tempo. que se escraviza para morrer em sílabas. e você, vida, vibra a cada investida. rasteja por um ataque suicida. eu não era assim, tão árida. e não sei quando mudei. muito menos onde, doce, encruei.  nada trouxe na sacola de memórias. vim só. oca. cheguei sem so[m]bra. transmutei-me em pó antes do fim. desconheço o endereço do sorriso sem motivo. nem imagino a caixa postal das respostas tolas às perguntas idiotas. eu não moro mais no apê em mim. parti. estou partida. tão caco, que não caibo em mosaico algum. todos os porquês ainda estão aqui e ali, no meio de minha bagunça, perdidos em um silêncio que faz eco. dúvidas ocultas em um pensamento cego. há interrogações intactas sob os escombros. e um retrato sem rosto. a três por quatro. encontraram um corpo. fragmentos distribuídos em cômodos. sou eu. dizem as línguas vizinhas.  reconheceram pelo modo ímpar de não caus...

Mimetismo (ou quase)

A qui, as noites têm sido quentes. As tardes, tórridas, sem vento. Ausente de movimento, também a vida. Estática. Visivelmente pragmática. Previsível. A í, não sei como anda o tempo. Você nunca me diz se chove ou faz calor intenso, se está propenso a raios ou chuva de granizo. Então invento um tempo de equilíbrio, adequando meu mundo ardente a tudo o que não compreendo. Porque não sei, do vento, as causas. Porque, das asas, só conheço o efeito de não tê-las. Crio, acolá, um clima cálido: morno-dor-mente. Chamo por Favônio, que, solícito, me atende, abrandando a condição de agito que me ferve. E tapo o sol em meu peito com uma cortina de neblina. Fina, tecida em voal, forrada de renda, franzida. Teatral, na medida. V ida baça, tépida, na dimensão que forjei: nem lúgubre, nem alegre em demasia. Aclimatada. Adaptada ao meio. L á, vivo quase. Vivo talvez. Vivo acho. Sobre vivo. E m contraste com a alvura da neve, algures. valéria tarelho