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17 março, 2010

neologismo I

por valéria tarelho em ,


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humpty dumpty


[p]ovo
pólvora
palavra
:
não fui eu
que descobri
a fórmula

mas invento 'palólvoras'
explosivas

elixir da vida
nova arma


valéria tarelho



– Quando eu uso uma palavra, – Humpty Dumpty disse com certo desprezo – ela significa o que eu quiser que ela signifique... Nem mais nem menos.

– A questão é – disse Alice – se você pode fazer as palavras significarem tantas coisas diferentes.

– A questão é – disse Humpty Dumpty – quem será o chefe... E eis tudo.

Alice ficou pasmada demais para dizer qualquer coisa; assim depois de um minuto Humpty Dumpty começou de novo:

– São geniosas algumas delas... Principalmente verbos, são os mais orgulhosos... Com os adjetivos você pode fazer de tudo, mas não com os verbos... No entanto eu posso lidar com todos eles! Impenetrabilidade! É o que eu digo!


(...)

– Você parece muito esperto em explicar palavras, senhor – disse Alice. – Poderia por gentileza me dizer o significado do poema intitulado “Tagarelisco”?

– Vamos ouvi-lo – disse Humpty Dumpty. – Posso explicar todos os poemas que já foram inventados – e um bom número dos que ainda não foram inventados.

Isso pareceu promissor, de modo que Alice recitou a primeira estrofe:

– Era grelhúsculo, e os mangartos
flexiscosos giroscopiavam
e no lafrás verrumaravam:
e muito fristes pareciam
os estornões, e malincondes
os caititurfas arfolavam.

– É o bastante para começar, – Humpty Dumpty interrompeu – há uma porção de palavras difíceis aí. “Grelhúsculo” significa quatro horas da tarde – a hora em que você começa a grelhar coisas para o jantar.


* trechos de HUMPTY DUMPTY (Lewis Carroll, Through the looking glass, cap. VI)

"Lewis Carroll, professor de matemática em Oxford, escrevia sobre política sob a forma de estórias infantis, pois conhecia o poder da Rainha para cortar-lhe legitimamente a cabeça. Assim, como quem não quer nada, ele inventou esse diálogo entre Alice e aquele cabeça de ovo chamado Humpty-Dumpty. Questão semântica. O uso das palavras. Já notaram que todas as questões políticas estão dependuradas em questões de linguagem?"


** trecho do artigo "Lá Vem o John Wayne de Revólver na Mão" (Rubem Alves)

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5 comentários:

valéria tarelho disse...

coisa mais sem graça é explicar a piada; por outro lado, tem poemas que eu gostaria que fossem compreendidos e saíssem da esfera das conjecturas, das análises furadas e comumente acatadas como verdades absolutas.

por isso resolvi contar parte da "piada" ao transcrever os trechos abaixo do poema. estraga prazeres, talvez, mas prometo que será só desta vez, ok? ;D

a questão do "elixir da vida" deixo nas mãos de vocês...quem arrisca dizer porque não escrevi "fonte de vida" ou algum termo análogo?
[tchan tchan tchan tchan....garanto que é fácil ;)]

boa leitura [espero]!

Ricardo Mainieri disse...

Vezemquando incorporo Caetano e suas outraspalavras.
Dormictórios, trevaluz, absinto-me, entrestrelas,
moto(corno)ciclista, verdazul y otras cositas más...
É legal inventar palavras, fazer um mix de idiomas, colocar tudo no liquidificador e servir um long-drink poético...

Beijão.

Ricardo Mainieri

Guto Leite disse...

Não foi você quem descobriu a fórmula, mas sigo o rastro: pólvavra, cognato! O elixir traz ele no fundo do pote, e imita o primeiro verso no meio, com outras letras. Beijos para a poeta!

valéria tarelho disse...

Maini, o nosso amor [poema]a gente inventa!
Viva o neologismo, viva a licença poética, viva a palavra viva!

Beijo!

Guto, torci a língua para falar "pólvavra"..rs
o elixir é bem menos complicado que esse nó que vc deu aí.
uma dica: o poema ia se chamar "negócio da china" :)

amado, como boa "feedida" que sou, leio seu feed e vi lá um post em que vc mencionou a Val. valeu!
gostei da ideia do encarte infantil no contexto do livro, daqui a pouco vai rolar um kit com direito a cd, ilustrações e por aí :)

beijo! [o mal de acompanhar via feed é que não visito mais os blogs e comento desse jeito meio nada a ver :/]

rogerio santos disse...

E eu que gosto de cantar "Orassamba" ??? (letra do Aldir)
Já cai nesses meadros ou meandragens da língua faz é tempo.
é cair de língua e alma e cometer poemicídeos...

Um que tenha:

Nós
ROGERIO SANTOS

no jogo silêncio
e nós por dentro
na pele a rubrica
a face rubra
na mão o cabelo
afagolpente
na noite infinita
adornosfurta
o lábio o degrau
a língua absorta
no corpo abissal
edemardente
um beijo um punhal
nacordafruta
perfume quintal
roséa difusa
é descomunal
dualciática
no jogo o silêncio
e nós por dentro
sem sombra nem som
nem som de vento
torrente torpor
em moviemento