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Marina Tsvetaeva

NEREIDA

Nereida! Onda!
Ela. Eu. Nós dois.
Nada além de
Onda ou náiade.
Teu nome, tumba,
Reconheço, onde for,
Na fé - o altar, no altar - a cruz.
O terceiro, no amor.

(trad. Augusto de Campos)

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Abro as veias: irreprimível
Irrecuperável, a vida vaza.
Ponham embaixo vasos e vasilhas!
Todas as vasilhas serão rasas,
Parcos os vasos.

Pelas bordas - à margem -
Para os veios negros da terra vazia,
Nutriz da vida, irrecuperável,
Irreprimível, vaza a poesia.

(trad. Augusto de Campos)




Marina Tsvetaeva nasceu em Moscou em 1892 e, após uma vida condicionada por trágicas circunstâncias, suicidou-se em Kazan, em 1941. Filha de um filólogo ilustre, de origem plebéia, professor universitário e fundador do Museu Puchkin, e de uma musicista, de ascendência alemã, aristocrata, teve sua infância marcada, como ela mesma diz, pelo exemplo de dedicação ao trabalho e pelo culto à natureza (pai), ao mesmo tempo que pelo amor à música e à poesia (mãe). Aos dezesseis anos tem seu primeiro livro de poemas acolhido pela crítica (Volóchin, Briussov) como uma revelação.

A partir deste momento abandona seus estudos musicais e dedica-se em definitivo à poesia. Conhece a fundo a lírica européia de seu tempo (especialmente a alemã e a francesa), mas são seus conterrâneos (Blok, Akhmatova, Biéli, Mandelstamm, Maiakóvski), a Rússia e seus temas que suscitam a pujança de sua expressão poética.

Força e refinamento junto de uma intrigante angulosidade e diversidade de estilo e de argumento, aliados a uma expressão rítmica das mais felizes situam-na, na moderna poesia russa, entre seus últimos grandes representantes: Pasternak, Mandelstamm e Akhmatova.

( por Aurora Bernardine - Revista Através 1, jan/1983, Ed. Martins Fontes)

Comentários

Jalves disse…
Marina Tsvetaeva ( a poeta abandonada )

Dez colectâneas de poemas,fora as peças em verso e os textos em prosa que ela a dada altura percebe que lhe podem alimentar a familia. A excentricidade da sua voz, versando sobre a intimidade das mulheres,o amor e também episódios históricos, marca a obra imensa desta escritora russa cuja vida trágica daria, ela mesma, um excelente poema épico.Suicidou-se num dia 31 de Agosto de 1941 por enforcamento.

Disse um dia: "Presos nas livrarias, cinzentos pelo pó e o tempo,
não vistos, não procurados, não abertos e não vendidos,
Os meus poemas serão apreciados como o mais raro dos vinhos-
Quando forem velhos"

Um abraço deste lado do mar
Pois é, Jalves, infelizmente somente parte de sua obra chega até nós (não sei em Portugal, mas li que mesmo na Russia o acesso ao acervo é parcial).
Muito, mas muito obrigada mesmo por enriquecer o post com essas informações.

Mais Marina, agora traduzida por Haroldo de Campos:


À VIDA

Não roubarás minha cor
Vermelha, de rio que estua.
Sou recusa: és caçador.
Persegues: eu sou a fuga.

Não dou minha alma cativa!
Colhido em pleno disparo,
Curva o pescoço o cavalo
Árabe -
E abre a veia da vida.

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grande abraço!!!
Pituco disse…
primeiros contactos com a poesia de Marina Tsvetaeva...que densidade!obrigado.
Pelo trágico final,ela não conseguiu fingir a dor...
Valéria e Jalves obrigado pelas informações...namaste
Jalves disse…
Marina Tsvetaeva

O poema Krysolov(" o apanhador de ratos",1925-26) é vagamente baseado na história do flautista de Hamelin, e é uma das mais apreciadas obras satiricas de Tsvetaeva. A sua veia satírica é um dos traços fortes da sua obra poética, que contém também belissimos poemas líricos e peças de teatro em verso. Neste poema, já com a forma que,nesses tempos de exilio em Paris, vai já vincando o seu estilo- trata-se de uma espécie de diário,em que a narrativa se vai desenrolando ao correr dos dias-,ela conta como um apanhador de ratos liberta uma cidade dos animais que eram uma praga, mas depois, vingando-se da ingratidão das pessoas, leva-lhes também as crianças. O poema só será publicado na União Soviética após a morte de Estáline, que ocorre em 1953.
Pelos dezoito anos,publica por conta própria um primeiro livro de poemas, Vechernii albom ("álbum da noite"). Dois anos depois publica outro,Volshbnii fonar("lanterna mágica"),e ambos incidem sobre a infância del,no regaço da pequena burguesia moscovita, Marina vai absorver toda a intensidade que há, por exemplo,nos poemas de Alexandr Blok.

Não me alongo mais para não pareçer enfadonho.

Bom fim de semana

Um abraço deste lado do mar.
Olá, Valeria pessoalinda, curtindo tudo neste seu espaço que é apaixonantemente maravilhoso. Parabens sempre. Deixo um um poemiudinho por gratidão:

Coração de mulher:
a flor que nasce do sol
e realiza a vida.

Beijabrações
www.luizalbertomachado.com