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Mostrando postagens de Novembro, 2015

nãovembro

Não vem (bro), que não tem

Estou vendo novembro passar. Se arrastar, na verdade. Lento. Inútil, já que não posso voar. Visitar o ninho. Cuidar do amor passarinho, com - muito - beijo no bico.
Espero dezembro (lado) alado. Pode ser o de sempre, acrescido da leve presença das asas que exercito há alguns meses.
Dezembro de plumas. Simples, sem paetês. Dezembro de aconchego, com a poesia que emana das mãos dadas. Toda distância será perdoada. Todo novembro - perdido - será esquecido. Dezembro promete ser mais próximo. Quase perfeito. Doce. Dose além da medida do possível. Mês doze. Dove. Que nos leva a crer no novo.
Pode acontecer um dezembro com gosto de abril, gesto de abril, cheiro de abril, gentilezas de outono. Amenas.
Dezembro com olhos de zelo, pousando seus beijos em meus cílios cansados.
Crédulos.


valéria tarelho

"o tempo passou na janela"

Depois dos 50 e de um câncer, também adquiri uma certa urgência.
A idade faz com que você pense nas relevâncias e as priorize; a doença te lembra que a vida é efêmera e o que não for para já, pode ser que não aconteça. Nem em Júpiter*, como preconiza a música.
Meu tempo é escasso, meu prazo tem um termo, minha paciência para determinados assuntos está por uma gota; para outros, esgotou. Secou a fonte.
Virar algumas páginas, queimar etapas, pular fases desnecessárias, não significa que desisti. Pelo contrário, insisto e resisto até o fim, só não me permito ao luxo do desperdício de meu tempo. E só eu sei o quanto ele me é caro e não o valorizei como deveria. "Mea culpa, mea maxima culpa".
Dormir no ponto, só se for no final de um exaustivo capítulo, para logo despertar e dar início a um (uni)verso. Em um novo livro.
Carolina, uma vírgula! (até que daria um bom título)

valéria tarelho
título : trecho de Carolina, do Chico
*menção sobre "o que não é para já, talvez seja para Júpit…

Chaga

Saudade arde. Só quem sente, sabe a intensidade.
"Assopre, meu bem, que passa". Crendice!
Coça, nasce casca, mas, quando parece que está curada, você cutuca ou dá uma batida na [es]quina de uma lembrança.
Saudade não cicatriza nunca. Não dá descanso.

É uma ferida sempre alerta.

caro coração

dê adeus à dieta, permita- se sair da linha: ame! o amor tem incontáveis calorias. é mel. é massa. é o prato da casa. o fast food da esquina. delicatessen.
prove o seu, enquanto quente; coma o céu, enquanto leve. o sabor se altera, se o amor espera; o prazer se perde, se o amor esfria.
consuma esse amor: doce, ardente, picante, adiposo, com excesso de química. amor, para matar as fomes e morrer de amor.
exploda, coração!
sem moderação.

valéria tarelho

por tanto isso

isso, que chamo de amor, só sei sentir por ti.
isso, que é chama e água fresca, que é sol a pino e sombra, que é prazer e o pior tipo de dor, que é vida em mim e o fim da minha paz, tem teu nome e [a]feição.
isso tem teu endereço e idêntico esconderijo. isso tem teus olhos me sorrindo e atraindo desde menino. isso tem teus braços, aninhando, junto ao peito, meus suspiros [e sonhos, com o recheio possível].
isso tem deus dedos de midas, dourando minhas pílulas. tem teus ares - ardores - de marte (vênus que o diga). tem teus modos de homem: que morre de amores. em mim.
portanto, vida, se isso (que insisto) não for amor, te faço um pedido: releve.
e se isso for uma febre, quem sabe, um vício ou um antigo feitiço: que não se quebre

o enquanto.

valéria tarelho

Isca

Tenho palavras reservadas só para você. E palavras inventadas, em uma língua nova e afoita, que só cabem em sua boca.
Tenho, também, palavras mansas, no idioma que você domina, para quando a correria for a tônica do dia.
Tenho prosa [pouca] para seu amanhecer e poesia [em pencas] para todo solto dia.
E o melhor: tenho você, que me inspira e provoca todas essas palavras: de amor e armadilha.

And so it goes

Te amo por causa de quase nada. Por coisa mínima, que tanto significa. Por pouca poesia, que, no dia a dia, superou as [parcas] expectativas. Virou torrente, o amor que era chuvisco. Garoa fina. Hoje, irriga minha vida, o amor que era pingo. Virou rio. Queda d'água. Fonte do meu riso. Usina.
E nem precisava da força intensa dessas águas, já que eu te amo por uma poça rasa. Pela lembrança que restou da chuva, retida na calçada de teus olhos. Onde dei meus pulinhos, igual criança. Te amo pelo nano instante em que tua úmida paisagem permaneceu invertida em minhas retinas. E converti em quadro, o teu retrato cristalino.
Eu, que só pedia [podia] uma rima, me veio esse amor: um livro. Com texto amarelado pelo tempo e páginas em branco para [meu] preenchimento.
Não era necessário ser assim, imenso. Te amo por um lapso em que somos eternos. Por um pedaço de sonho que temos diante do vasto espaço que não abrangemos. Por uma fatia de dias nessa vida tanta e torta, onde te amo a torto e a dire…

está para nascer

Ainda não inventaram a palavra que defina este encanto trançado nos cabelos do vento.
Nenhum idioma traduz o modelo de texto que estamos desenhando. Desconheço exemplo na literatura, com tais contornos. Com as nuances que o tempo foi aquarelando.
Somos feitos de pigmento e água. Liquefeitos. Escorrendo. Correndo riscos. Dois rios de longo curso. Praias do mesmo oceano. Sempre as águas. Que nos banham. Lavam a alma. Sempre a rima onde nos ilhamos. O abissal do olho.
Não sei quem assina a coautoria de nossa história. Sei que, no cafuné das horas, se desenrola nosso melhor enredo.

Nasce um poema no encanto - inefável - em que nos mesclamos.

valéria tarelho

dos caminhos

entre o teu
e o meu
travesseiro
há uma
estrada
interditada

[com entrada
e travessia
proibidas]

amor
é este
atalho
em obras
que estamos
t[r]ocando

com as próprias palmas
o suor dos corpos
o sal das lágrimas

minhas palavras
somadas
a teus gestos
concorrendo
contra o tempo
ao preço de
almas
'superfraturadas'

[ tudo compensa
se vez e quando
meu travesseiro
é o teu peito]


valéria tarelho

a la almodóvar

Antonio Banderas e Victoria Abril, em Ata-me, de Pedro Almodóvar



já que
nosso amor
usa mordaças
e máscaras

não hesite

dê mais corda
a esta
tortura
:
ata-me

valéria tarelho



Pousada

É por teus olhos [amêndoas] que os meus [cocoa] amanhecem. E, quando te vejo, o desejo escoa [em jade]. Serpenteia. Em Ondas. Transborda suas tantas transparências.

Tenho sempre uma [lág]rima pronta, a tua espera. E um riso de canto de boca, que se alarga a tua chegada.

É por teus olhos de ontem que os meus de outrora adormecem. Quando o corpo se veste, a boca se despede. E a espera hospeda em meu olho - espelho - o teu melhor ângulo.

Primaferas

E é com extrema delicadeza que te abro as comportas para que me inundes com as águas da espera. Te escancaro os portais das pernas, as clareiras dos poros, as cortinas dos olhos.

Ofereço, a ti, todos os veios. Minhas riquezas. Para que venhas, e me encontres - sempre - perfumando o leito onde deitamos as mais nuas intenções.

Parecemos feitos de frescor e mansidão. Por dentro, somos fome e erupção. Mordendo as tardes em flor.

[Fr]ágeis dentes de leão.



valéria tarelho

Por uma pétala

O que me primavera exatamente agora, são teus olhos de orvalho, tuas mãos (mágicas) jardinando meu solo e a lembrança de teu corpo fertilizando meu substrato.
Em tua vida sei que sou flor e fêmea. Acácia das tuas carícias. Orquídea fora de época.
Efêmera.